Dizer “Não”, não basta!

Nota: Antes de mais nada, esta é uma postagem sobre algo que aconteceu há algum tempo e está agendada para entrar hoje, para preservar as pessoas e a instituição envolvidos (menos eu, pois aconteceu comigo.
No laboratório de informática, durante uma aula com uma turma de 3º ano do fundamental, após todos entrarem e escolherem seus computadores, ao ver o último menino a ficar sem um computador, o estudante “F”, eu pedi que se sentasse com o estudante “G”, no meu notebook. Carrego sempre comigo meu laptop, pois preciso de meus arquivos de aula e algumas vezes o número de alunos excede o número de máquinas disponíveis, exatamente como neste caso. Alguns segundos depois, o estudante “F” voltou relatando que o estudante “G” disse que não dividiria o computador. O primeiro impulso foi pedir ao estudante “F” que se sentasse com outro colega, mas me soou um tanto deseducado negar-se a dividir um computador quando a maioria estava sentada em duplas. Fui até o estudante “G” e perguntei se ele havia mesmo dito que queria o notebook só para ele, e o mesmo me confirmou, friamente. Pensei em perguntar como ele se sentiria se fosse ele no lugar do colega, mas achei que podia fazer mais. E fiz.
 
Disse para que se sentasse ao lado da minha mesa, onde não havia computador. E como o computador é para uma pessoa somente, permiti que o estudante “F” ficasse com ele naquela aula. Após se sentar no local indicado, atendi um outro estudante e me sentei ao lado dele para preencher o diário de classe. Ele olhava para baixo, com uma mistura de raiva e frustração. Um minuto depois, dei a ele uma caneta e um papel e pedi para que contasse o número de computadores e anotasse no papel. Olhando baixo ele o fez. 11 computadores, com o meu. Após, pedi para que contasse o número de alunos naquela aula, incluindo ele. Novamente o fez. 18. Pedi para que anotasse acima no 11 e subtraísse dos 18. Um pouco contrariado por perceber o que eu intencionava, ele resolveu a conta, 7. Perguntei a ele: “Temos 7 alunos a mais que computadores. Para que cada estudante tenham um computador para sí só, a solução seria deixar 7 alunos sem computadores?” A resposta temida: Um tímido sinal afirmativo com a cabeça. Seriamente disse a ele: “Ok, vamos começar por você. Hoje será um destes 7 alunos. Mas será o único, porque os demais concordaram em partilhar.” Mais um minuto de silêncio e me dirigi a ele. “Será que não há uma outra solução para nosso problema?” Pensativo e lentamente ele fez um sinal negativo. “Tem certeza que não há uma solução diferente, porque eu tenho a impressão de que há”, instiguei ele. Mais timidamente ainda ele concordou com a cabeça, e respondeu que a solução seria dividir o uso do computador. Sorri para ele, elogiei, e finalmente vi sua cabeça erguer-se e olhar-me nos olhos. Estendi a mão para cumprimentá-lo. Fiz isso energicamente com um cumprimento juvenil e sorridente. Ele sorriu. Xeque-mate. “Acho que agora que encontramos uma solução, você poderia ir até lá e perguntar se o “F” concorda em dividir o computador. Novo sorriso. Estendi os braços e recebi um forte abraço de alguém que parecia ter tido uma epifania. Observei-o chegar perto do colega e desacelerar. Ele exitou, e como não exitaria, ele estava no lugar que seu colega estava há poucos minutos. E se tivesse seu pedido para compartilhar do computador negado? Com humildade o vi pedir para sentar-se junto com ele, e ter o pedido aceito. Instantes depois ele irradiava alegria enquanto trabalhava junto com o colega em um desenho de uma praia, tema solicitado por mim no início da aula. 
 
Dizer “Não” e impor minha vontade, seria o mesmo que tentar adestrá-lo. Proporcionar um momento de reflexão e fazer “o mundo dar as voltas”, colocando ele na posição do outro, é educá-lo.

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